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Família na web 2.0

Então que minha mãe aderiu ao Facebook. Antes dela, minha tia, irmã da minha mãe – vamos chamá-la aqui de tia Mirtes –  já tinha aderido. Tia Mirtes posta apenas pedidos de adoção de cães. Ela participa de uma ong que ajuda animais abandonados e essa é a sua causa de vida. Mirtes é solteira (por opção), não tem filhos e sequer curte criança. Ao que tudo indica, tem curtido muito no “feice”, nem que seja implorando para que alguém adote um peludo. Minha mãe e tia Mirtes trabalham juntas. Há anos. Sentam uma de frente para outra, cinco dias por semana, trinta dias ao mês e trezentos e sessenta e tantos por ano. Enfim.

Eu nem lembrava que minha nãe estava no Facebook. Ela entrou e nunca falou comigo (ao contrário – e graças a deus – do que muitas mães fazem, a minha não escreve no meu mural desejando bom dia todos os dias, dizendo que me ama. Pra ser sincera, acho que ela nem me ama assim, como uma bratemp. Mas divago). Dia desses perguntei o que ela estava achando desse lance de reencontrar pessoas e se comunicar por uma rede social e a resposta foi enfática: “um saco”. Não estranhei. Dado que minha mãe tem três amigas (uma é minha tia Mirtes, outra é a médica do encontro de motoqueiros e a terceira, que ela não vê há 30 anos, mora em Camburiú), não é difícil imaginar o motivo da sua rejeição pela rede. Mas hoje eu cheguei da agência e o Júlio me contou que a minha mãe tinha add ele.
– Sua mãe me add no facebook hoje.
– Sério?

Fui procurar pelo perfil e ele estava lá. Foto de avatar bonita, com cabelo arrumado e roupa elegante. Não usa a timeline nova, mantém o perfil old school. Surpreendentemente, minha mãe curtiu a página da Asics Brasil e deixou um recado por lá agradecendo a rápida troca de um tênis, ressaltando tratar-se de uma postura louvável para empresas que, no mais das vezes, cagam pro consumidor (temos um case, auditório?). A mensagem mais recente deixada para minha mãe era, adivinhe, de tia Mirtes.

Unidos do sarcasmo à quatro

Unidos do sarcasmo à quatro

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Sunday talking

– Acho que o irmão dela não gosta de mim.

– …

– Bem, azar o dele, pois eu sou legal pra caralho.

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I love you John

Meu pai sempre disse que eu iria fazer algo importante algum dia. “Sinto isso, John”, ele me dizia, depois de algumas cervejas. “Ou você vai fazer algo muito especial ou vai acabar na cadeia”.
E ele estava certo, meu velho pai.
Fui para na cadeia antes de completar dezoito anos. Roubo – foi por isso que acabei lá. Ou, como estava escrito no documento de acusação: “invasão de domicílio e roubo de bens no valor de £25”. O que equivale a umas trezentas libras nos dias de hoje. Não foi exatamente o assalto ao trem pagador, podemos dizer. Eu era um ladrão ruim pra caralho. Quis fazer o mesmo “trabalho” várias vezes. Roubei uma loja de roupas chamada Sarah Clarke’s, na rua atrás da minha casa, em Aston. Na primeira vez, agarrei um monte de roupas penduradas em cabides e pensei: “maravilha, vou poder vender essas coisas no pub”. Mas esqueci de levar uma lanterna e as roupas que roubei eram babadores e roupinhas de bebê.
Eu deveria ter tentado vender o cocô junto.
Assim, eu voltei. Dessa vez levei uma televisão de vinte e quatro polegadas. Mas a porra da TV era muita pesada e, quando estava tentando subir na parede de trás, ela caiu sobre meu peito e não consegui me mexer por quase uma hora. Fiquei deitado lá naquele lugar sujo, me sentindo um otário. Era como Mr. Magoo drogado, isso sim. No final, consegui tirar a TV de cima de mim, mas tive que deixá-la ali.

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Primeira página da biografia do Ozzy. Se ele tentasse roubar meu coração seria inútil, já que isso aconteceu na primeira vez em que ouvi os primeiros acordes de Iron Man. E eu continuo o amando mesmo depois de tantos anos de relacionamento. Mesmo depois de ouvi-lo dizer sempre as mesmas coisas. Mesmo depois de toda a chuva que eu tomei na última vez em que nos vimos. Mesmo sabendo que ele cheira a talco e não é, nem de longe, o cara mau dos meus sonhos.

Feliz dia dos namorados, Ozzy. And god bless us all.

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Você é um coco e eu vou te matar.

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De tudo, um pouco

Alice foi surpreendida pela carta entregue em mãos nessa manhã. Quase tinha se esquecido da conversa do final do ano passado. Não esperava tanto, embora quisesse mais. De qualquer forma, Alice se sentia recompensada. Nada de tapinhas nas costas tampouco pedidos de desculpas além dos muitos que já tinha recebido. O que Alice segurava naquela manhã era mérito pessoal e intransferível. Achou engraçado o modo como, em momentos de chão que se perde pro bem ou pro mal, um filme rápido passa em nossas mentes, relembrando as cenas que nos levaram até ali, e quase acreditou que isso acontece também na hora de toda a morte. Depois que a tarde veio, Alice pensou na ironia. Como algo que fora adiado por tanto tempo acontece justo em um dia como hoje? Parece conspiração cósmica ou qualquer outra baboseira astrológica. Mas de fato, não dava pra negar a coincidência, se é que ela existe. Em todo caso, Alice crê mais na ironia. “Rá, rá, rá achavas que eu era apenas um velho safado e bem, acertastes” disse a voz no seu ouvido.

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Ao mestre com carinho

Tenho conversado muito na terapia sobre aprender a impor limites. Os meus limites. De valer ou não a pena, escolher quem merce ou não o seu tempo. De dar importância pra quem realmente faz por onde. Isso nos mais variáveis níveis de relacionamento. De família a amigos, de namorado a ambiente de trabalho. É preciso saber a hora de dizer não, assim como é preciso saber manter por perto quem você quer ter perto durante uma boa parte da sua vida. Desde que inventaram as desculpas ficou muito fácil cagar na cabeça dos outros e depois dizer: desculpa. Mas esse post nem é pra filosofar sobre isso. Filosofia é um saco e eu realmente não boa na argumentação. O negócio é que hoje eu fiz algo que seria incapaz de fazer em qualquer outro momento da minha vida e eu estou me sentindo muito adulta com isso. Antes de contar a história, leia:

“Na verdade não tenho muito o que contar. Eu estou bem, sempre estive e você de alguma forma deve saber disso, já que nunca mais me procurou apesar de eu ser a única filha do seu único irmão. De verdade, não tenho vontade nenhuma de manter um relacionamento com você. Te devo ótimas lembranças da minha infância e é só. Não vou entrar no mérito sobre a divisão de bens que aconteceu quando minha vó Mercedes morreu porque de verdade, dinheiro nunca me faltou. Espero que você tenha sido muito feliz e que continue sendo. Fique em paz.”

Uns dias atrás eu encontrei minha madrinha no Facebook e adicionei ela como amiga. Ela me mandou uma mensagem toda linda dizendo que era uma “delícia” me “reencontrar”. Respondi apenas com dois pontos e parenteses, o famoso 🙂 (que pode significar um sorriso sincero ou um sorriso sarcástico, é preciso ser bom na arte de interpretar emoticons pra não levar gato por lebre. Ou sarcasmo por amizade). Então ela me respondeu pedindo que eu escrevesse um email pra ela contando como eu estava. E eu contei o que eu tinha pra contar.

Essa minha madrinha desapareceu da minha vida há uns 10 anos. Nunca mais me ligou. Fosse aniversário, Natal, nada. Eu li a mensagem e pensei: posso mandar um email pra ela contando amigavelmente as coisas pelas quais passei nos últimos anos ou posso ser ter um minuto de sinceridade. Optei pelo minuto sincericídio. Afinal, que diabos ela quer comigo? Jura mesmo que importa saber como eu estou? As pessoas ou são burras demais ou elas são cara de pau demais, eu não sei. O que eu sei é que tenho limites e que se você realmente se importa com alguém, cuide enquanto é tempo.

Pois é tia, eu nunca me senti tão bem.

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St. Patrick, esse lindo!

Ok, estou adiantada na comemoração de St. Patrick’s day, esse santo incrível que nos deu a cerveja, né? Olha, eu não tenho a mínima ideia das realizações dele e estou com preguiça de procurar no google – embora não me decepcionasse descobrir se tratar de um santo que certa ocasião chorou Guiness. Mas não interessa quem foi Patrick nem o motivo dele ser santo e ter um dia tão peculiar. O único Patrick que me importa é o da história que contarei a seguir.

*rebobina a vida até o verão de 1990*

Era o primeiro ano em que passaríamos o verão na casa de praia comprada pelos meus pais. Como uma adolescente de 14 anos que segue a tradição, juntei azamiga do caração dentro do furgão da família e desembarcamos em Paúba para as incríveis férias de janeiro. Ah, nós éramos so young and so wild vestidas em nossas cangas coloridas e camisetas brancas da hering, cada uma cortada de um jeito próprio muito mais para serem identificadas por suas donas no meio da bagunça do que uma forma de afirmação das nossas personalidades. Nós amávamos o Guns e o Axl Rose. Acho que amávamos mais o Axl do que o Guns, mas vai saber. E era aquele esquema tietagem mesmo. Tínhamos as quatro paredes do quarto forrado com posters da banda. Menos a Bibi. Bibi era do contra e nunca se apaixou pelo Axl. Só depois declarou amor eterno por Mike Patton, mas essa é outra história. Aquele era um ano de Rock in Rio, sonho de consumo de qualquer pirralha de 14 anos que se acha roqueira o suficiente para estar lá, fumando cigarros e erguendo isqueiros. Nossos pais não nos achavam tão rebeldes assim, de modo que acabamos assistindo o festival pela TV. Bem, ao menos estávamos na praia e podíamos passar a madrugada contando estrelas cadentes. Há que se reconhecer uma puta independência nisso.

Mas aí, Patrick. Patrick era mais velho e roqueiro de verdade e habitava as mesmas areias que nós. Ele tinha longos cabelos louros e uma tatuagem de caveira no joelho. Patrick jogava taco na praia no fim de tarde tão bem quanto jogava os cabelos pra trás depois de um mergulho. Patrick era lindo, absoluto, incrível e personificava o que mais perto de Axl Rose chegaríamos. E cagava para nós. Mas ele tinha uma irmã e a irmã de Patrick virou nossa melhor amiga. Foi aceita na seita sem nem passar por testes. De fato, ela era realmente legal. E aí teve uma amizade que durou tantos anos quanto durou meu amor platônico pelo irmão dela (ok, isso é mentira. Nós realmente ficamos amigas independentemente do irmão. O fato é que existe a vida e a vida separa. Vocês sabem como é).

O único problema do meu amor por Patrick – além do fato dele não dar a mínima pra mim – era a Lu. A Lu também se apaixonou pelo moço. Até hoje não se sabe se o amor era por ele ou por ele representar tão bem o verdadeiro alvo da paixão, Axl. De qualquer forma, na época tudo era muito sincero. Sincero ao ponto de ok, vamos suspirar juntas pelo mesmo carinha que se fode pra gente e quem pegar primeiro, pegou. A gente achava que tinha chance. A esperança era mais que impositiva; ela era nossa realidade. E assim correu aquele verão de 1990. Amando o impossível, ouvindo Guns e filosofando durante muitas madrugadas sobre Patrick, o amor, o cosmo e… e o Guns, claro. Passamos muitos outros verões como aquele. No ano seguinte, tivemos a oportunidade de experimentar nosso primeiro baseado enrolado cuidadosamente por Patrick numa seda preta. Eu particularmente tive a oprtunidade de experimentar uma surra da minha mãe quando ela descobriu que eu havia fumado um baseado gentilmente cedido por Patrick. Mas essa também é outra história.

De tudo o que aconteceu nessa época, o que eu mais me lembro é da promessa de desencanar de Patrick caso eu não ficasse com ele até o ano 2.000. Sim, eu sempre fui insistente. A Lu esqueceu Patrick bem antes. Eu não. Eu chorava como se ele tivesse me abandonado no altar. Patrick foi um cara realmente importante na construção da minha forma de ver o amor com certa teimosia. Não fiquei com Patrick, mas consegui tirar uma casquinha do irmão. Veja, a genética era a mesma, certo?

Não há nada em comum com St. Patrick’s Day e essa história, exceto pelo nome. E pelo fato de que, fosse naquela época ou seja nas comemorações de amanhã (hoje?), me cai muito bem o papel de Bob Esponja.

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