Category Archives: Sete de Copas

2012 planos que ainda não existem

Para as previsões sobre o fim do mundo no ano que começou há seis dias, Alice não liga. Ela sabe que este mundo acabará em algum momento e nós não estaremos aqui para viver isso. Azar das gerações futuras. Mas divaga. Alice sentou-se na cadeira às vezes confortável para refletir sobre 2011, um ano montanha russa que começara em queda absurda e terminara no lago dos patinhos que rodam a 2 km/h em torno do próprio eixo. Depois de abrir e fechar a página muitas vezes, Alice finalmente percebeu que lição do ano passado era sobre a paciência. Foi quando ela começou a se desligar do passado – e olhar as oportunidades embutidas no futuro – que as coisas começaram a mudar. Alice não estava pronta naquela noite de domingo pra receber qualquer notícia. E a verdade é que ela nem queria. A vida voltara a andar numa boa, como quando se é criança e tiram as rodinhas da sua bicicleta, uma epécie de sensação de liberdade. O fim da história todos sabem: apesar de ter caído no buraco e lá ficado por muito tempo, estava feliz e nada mais teria de ser dito. Não sabia exatamente se 2011 fora um ótimo ano. Tivera a promoção, o aumento, o namorado de volta e uma viagem pra Europa. Com a média de uma coisa incrível a cada 3 meses, Alice sabia não poder reclamar. O que tivera de ruim era imutável, mas não insuperável. Ela sabe que o desapego do ruim (e também do bom) não é tarefa fácil. Por vezes Alice sentia raiva e chorava e brigava e tentava exigir um passado diferente; por vezes se resignava. Agora Alice toma seu chá com os amigos (novos e velhos) e apenas agradece a compreensão que tivera. Não lamenta mais por aqueles que optaram ir embora.

Alice não tem grandes planos para o ano que começa, prefere estabelece-los ao longo dos meses e provavelmente não terá 2012 planos a cumprir. Exerce dia a dia a lição da paciência e caminha sem pressa. Comprou uma televisão pro quarto, esvaziou gavetas, mandou fazer uma grande estante para abrigar os livros que em algum momento virão. Pesquisa os preços das passagens aéreas pra viagem; pensa sem pressa na união e no filho que mudará a vida pra sempre. Enquanto tudo isso não acontece, Alice cuida mais de si mesma e começa a dizer alguns nãos, sempre incrédula quanto a qualquer tipo de pais das maravilhas.

E assim segue em frente.

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Do misticismo

Numa abertura de cartas especiais, Alice tinha, de um lado, dois naipes de espadas e um pajem de paus. Do outro lado, dois naipes de copas e a carta do mundo. Sabia extamente o que aquilo significava. Depois, numa outra jogada, a carta do diabo, o deus Pan, revelava o desejo reprimido da atração física que Alice ainda exerce sobre o Louco, a carta zero. Nem todos sabem, mas o louco é quem nos impulsiona para vida de uma forma destemida e, ao mesmo tempo, desvairada. Ele não mede as consequências e está pronto para cair no abismo, pouco importando o que lhe espera. Em algum momento ela tirou a carta do enforcado, que sugere o sacrifício voluntário para atingimento de um objetivo maior. Mas apenas quem não abriga a covardia em seu coração pode experimentar verdadeiramente o arquétipo do enforcado e colocar-se na posição altruísta que ele sugere. E isso ela sabia não poder esperar de ninguém.

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Eu não lembro de um dia que eu tenha sentido mais raiva do que hoje.

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O sol e a torre

– Mas eu não vou conhecer ninguém? Não tem ninguém me esperando?
– Não.
– Ninguém??
– Agora não.
– Eu vou casar?
– Vai e vai casar por amor.
– Eu vou ter filhos?
– Não só vai como é bom ficar atenta. Essas crianças podem aparecer antes do planejado.

*muxoxo*

– Sabe, é como uma folha de papel ao vento.
– Hummmm…
– Não pode sucumbir às tempestades nas noites de sexta, filha. Pega essa força aí e segura.
– Vou comprar um guarda-chuva maior então.

 

PS.: esses diálogos não são necessariamente reais. Eu também sei falar sozinha.

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O mundo

Acontece que eu não resisto. Prometi que esse ano eu ficaria longe de tarólogas mas falhei miseravelmente na tarde de ontem. Então dirigi até o Butantã e entrei na casinha simples da Leandra, uma moça simpática de traços ciganos e olhos azuis enormes, recomendada por uma das inúmeras cartomantes cujos telefones eu guardo na lista de contatos. Colocadas as cartas, ela explica o momento atual e depois deixa que você faça perguntas específicas. O primeiro jogo era muito bom segundo ela. Eu entendo pouco de tarô, mas sei que a carta do mundo é realmente a mais incrível do baralho. O resto do jogo não foi tão incrível assim. E sabe, eu não tenho vergonha de chorar na frente dessas moças porque eu tô pagando. Muito mais do que saber previsões para um futuro nem tão distante, o que eu quero mesmo é ter alguém pra conversar sobre as coisas que eu não me sinto mais à vontade para falar com ninguém. Daí eu faço perguntas sobre o que já sei só esperando que as cartas digam o contrário. Mas elas não dizem. Solto muxoxos e suspiros. Leandra me serve um chá e conversamos. Ela conta de um relacionamento bem difícil anos atrás em que o cara desaparecu com as um monte de coisas que lhe pertenciam – fogão, sofá, móveis. Digo que entendo. Tive um relacionamento semelhante. O cabra terminou comigo e nunca mais devolveu o que eu tinha emprestado, incluindo aí algo torno de 50 Cds originais. Isso foi lá em 2003, 2002. Embora tenha sido um puta puxão de tapete na época, hoje não me diz nada. Que ele tenha feito bom proveito dos meus CDs (secretamente desejo que o microondas tenha explodido na cara dele e deixado queimaduras eternas de primeiro grau, mas isso não conto pra ninguém).

No final das contas, Leandra foi ótima pra mim. Muito mais que as tantas outras onde as cartas diziam o impossível. “Espera que tudo vai mudar na casa nova”. Ahãm, sei. Obrigada por me enganar. De qualquer modo, eu vou botar uma fé naquele mundo do jogo. A gente sabe que tudo vai virar uma grande piada e o melhor é começar a rir então..

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