Category Archives: Fricção

Aliceteração

Alice alivia os dias em livrarias onde escolhe livros de leituras leves. Levanta lívida, vívida, quase levitando, quase livre. Sai no limiar do dia apenas para ver os lírios no campo da imaginação. Quem vê Alice passar sem pedir licença, lépida e intrépida, não imagina as muitas vezes em que é tão leviana. Do linóleo não se lembra, pois não guarda lembranças do seu lado libertino em épocas já longínquas, menos lúdicas do que gostaria. Do limbo ao livre arbítrio, Alice alitera, sem literalidade ou propriedade, o significado da sua própria alienação.

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Let the dominos fall

Abre-se a caixa, pega-se peça por peça. Todas pretas com pontos brancos. um, dois, quatro, seis. Você enfileira tudo com alguma coerência, desenha pequenas curvas, calcula bem a distância. Usamos um duplo 18 pra causar efeito mas nem tanto. São 190 pequenos retângulos em pé aguardando o peteleco inicial, momento em que cada um cai sobre o outro até que não sobre nenhum na posição original. Ninguém sabe se vai funcionar tal qual planejado. Quando não acontece, a gente começa tudo outra vez.

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Give yourself a chance of being happy one more time

Decida o que deve ser maior na sua vida, Alice. A coragem para ser o que tiver que ser ou o medo que te esconde no conhecido. Não vacile na indecisão tão sua. Se fosse eu você, me armaria da coragem fornecida por algumas doses de vodka. Você já pagou pra ver e agora só te resta aguardar os dividendos. Olhe em volta e, mais que isso, enxergue. Porque às vezes as coisas boas podem acontecer. E ó, elas acontecem. Não seja tão teimosa, insegura, pessimista. Ouça menos pessoas, escute mais seu coração. Try harder, Alice.

And make it work.

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Não sabia se casava; se comprava uma bicicleta

Depois de muito pensar e racionalizar, decidiu-se. Comprou uma bicicleta em vez de se casar. Bastante óbvio para alguém como ele. Ela muito brigou, foi passional e quis morrer. Mas sabia e sempre soube desejar o casamento, apesar de.

E apesar de, cada um seguia mais ou menos feliz com suas escolhas: ela, tentando encontrar alguém pra amar tanto novamente. Ele dirigindo a nova bicicleta pelas ruas da grande cidade, talvez nem sempre acertando na direção.

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Escreva nesse espaço infinito um post bem bonito de amor.

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Almost Alice

Acordou atrasada, saltou da cama, fez xixi, olhou no espelho a cara ainda amassada e disse a si mesma: Alice, você está demitida.

Você está demitida de todos os seus erros, dos acertos, da falta de vontade, da má vontade, da preguiça. Estás demitida dos livros, dos links, das reuniões, da camisa social, da meia-calça e das sapatilhas. Te demito do salto, da moral e dos bons costumes. Demitida da música, do filme, da dança, do espartilho. Corre que você está livre, você está demitida. Alice e o Chapeleiro foram até a sala de reunião e ela lhe disse que estava indo embora do país das maravilhas. O Chapeleiro olhou Alice com cara de espanto. Não entendia. “Mas eu pensava que você era feliz nesse país”, disse por fim. Alice explicou que fora muito feliz ali, mas agora precisava tomar outro rumo, trilhar um novo caminho, ver novos horizontes. É que a rotina mata Alice, embora ela saiba precisar dela para não morrer antes da hora marcada. Se sentiu triste, abraçou pessoas, fora aplaudida. No fim, Alice soube ter feito tudo conforme deveria. Ao chegar em casa, lembrou da rainha, do coelho, do relógio que derretia os minutos do seu dia. Olhou ao seu redor para reparar no que tinha: uma geladeira barulhenta, uma tevê dentro da caixa, uma mesa com velas, o gato. E o cachorro que chegaria. Alice, talvez só agora, percebia o tanto de coisas que existiam, que formavam a sua história e ali estavam apenas para que ela continuasse a ser escrita e nunca esquecida. Adormeceu no sofá e acordou antes do sol. Enquanto escrevia, a manhã nublada despertava na sua janela. Alice despertava com papel e caneta, pronta para um novo capítulo.

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Isso não é para você

Sexta-feira. Debruçar-se no balcão, rir com amigos, esperar o cortejo. Salto alto, batom. Não troco pelo silêncio do décimo-nono. A vodka e o shuffle são nossas melhores companhias. A vodka e o shuffle. A vodka e o shuffle. A vodka e o shuffle. E você nem sabe como é bom estar aqui. Secretamente desejei que o nome dela fosse Katiucia. Só pra eu rir ao lembrar. Katiucia. Katiucia. Katiucia. Mas eu ainda rio do futuro, eu rio do desconhecido, eu rio por que não tenho mais vontade de chorar. E eu rio do shuffle tocando don’t get me wrong. Eu rio porque já estou bêbada, porque o cigarro queima, porque as letras embassam. Porque adoro eu sendo tanto eu mesma.

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