Alice envelhece sem perder a ternura

Sempre ria das pessoas que tentavam adivinhar a sua idade. Ninguém nunca acertava, e ficava feliz quando recebia cinco, oito e até dez anos a menos. Mas foi de repente que isso parou. As pessoas não se surpreendiam mais  com seus 36 anos. Não que fosse motivo de tristeza, mas era o indício fatal de que começara a envelhecer. Ontem mesmo disse pro namorado que em 3 anos e meio teria 40 anos. Ele concordou e acrescentou que teria 30 em 3 meses. Ela retrucou com um graças a deus. Afinal, há quanto tempo estavam juntos e ele não saia da casa dos 20 anos mesmo? Enfim, era um alívio ele fazer trinta e era bastante assustador estar perto dos 40. Pois diferentemente do medo que as pessoas têm de cruzar a casa dos 30, chegar aos 40 é quase uma profecia. Você vai ter 40 anos – desculpe-me se você tem 40 anos e lê isso – e ter 4o anos é o início do fim. Ok, exagerando aqui. Diz-se por aí que 50 is the new 30. Concordava muito mais para esquecer que o tempo passa do que por acreditar naquilo. Não seria tão ruim ter 40 anos se continuassem lhe dando 30. Mas por acaso não estavam, hoje, lhe dando 26, de modo que algo estava indo bem mal na sua aparência. Culpa do cigarro, óbvio. Só que fumar era tão parte da vida que parar poderia ser muito mais catastrófico (ainda em dúvida aqui sobre o tipo de catástrofe que parar de fumar possa causar a alguém).

Então numa manhã de segunda-feira, Alice (que, sejamos francos, estava apavorada com o fato ter 40 anos em 3 anos e meio) ligou pro demartologista e marcou a consulta mais cara da sua vida. Sabendo que essas consultas seriam mais e mais frequentes a cada ano, fez uma rápida projeção sobre o quanto ganhava e quanto teria que ganhar para bancar tais visitas sem aperto. Além da consulta, tinha que inserir o valor do peeling e eventual  preenchimento. Mais triste com o prognóstico sobre os gastos do que o fato de ter 40 anos em 3 anos e meio, Alice resolveu improvisar sobre a própria condição. Afinal, ninguém é jovem pra sempre. Já pobre…

Era jovenzinha
Com cara de mocinha
O tempo foi passando
E virou tartaruguinha
Alice não se cansa
De passar creme na cara
O médico não lhe engana
E não vai levar essa bolada

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2 Comments

Filed under Alta Fidelidade

2 responses to “Alice envelhece sem perder a ternura

  1. Irene

    Tem pessoas que pela inteligencia, pela graça, pelo senso de humor…Terá 30 anos sempre.Alice é uma dessas pessoas.

  2. Mia

    Quando começam a nos dar nossa idade real… vixe. Ainda bem que sempre dizem que pareço ter catorze ou quinze (ainda, ainda).
    Mas o importante é saber envelhecer, como diz o título, com ternura.

    Não conhecia aqui, mas gostei bastante. *-*
    Beijo!

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