Travelling without moving

Alice acordou perdida. Alice não consegue achar seus sapatos e por isso mesmo Alice veste qualquer coisa. Alice se perde nos pensamentos e ensaia uma fuga para lugares distantes e desconhecidos. Já arrumou seu passaporte e agora só falta pedir demissão. Aquele momento inenarrável em que se chega até o superior e diz: estou indo e nenhum dinheiro me prende. Mas Alice nem sabe para onde vai, sabe apenas que tem que ir. De volta pra casa dos pais, de avião para Londres, a pé pela Paulista. Alice vai e vai e indo ela certamente chegará em algum lugar. O que Alice não mais suporta é a convivência comum nos seus espaços. Nos seus ambiente de trabalho. E, seguindo o ditado, Alice se muda porque ela é a incomodada. Alice precisa ir, precisa tomar o trem, a última dose de vodka, o primeiro sono que é sempre o mais gostoso. Alice devaneia, digita, não se importa. Não sabe o que escreve nem tem nada pra dizer, eis a grande verdade. Pensa na mala, nos casacos preferidos, nas opções que devem ser feitas. Pensa por quanto vai alugar seu novo apartamento e se deve ou não deixar procuração pro inquilino. Alice olha o mapa, escolhe os lugares, viaja sem sair do lugar. A cada movimento do braço esquerdo em direção ao copo, Alice ouve as pedras de gelo batendo umas nas outras e engole. Alice traga e é tragada por todas as suposições sem sentido que faz e nem percebe. Cadê o mapa? Pra onde vamos? Como assim você já vai? De repente Alice revê todos os capítulos do último ano em branco e tem vontade de dar chineladas na própria perna que é pra ver se acorda ou se isso redime todas as vezes que se deixou fazer de otária. Tem raiva do que viu, tem raiva do que leu e simplesmente não consegue entender pra que serviu tudo isso. Quando alguém se escancara dessa forma ou quando alguém precisa de chamar tanta atenção a ponto de, se necessário, enfiar facas de 140 caracteres no peito de outrem, é sinal de que tudo está bem errado e que nada realmente poderia ter dado certo. Alice não coleciona favstar nem disputa o maior número de nada. Alice tem os pés no chão e sabe o quanto tudo é passageiro. Vai chegar o dia de tapinhas desnecessários em suas costas e Alice aguarda apenas para dizer “não, muito obrigada”. Então Alice volta pro dia de hoje e lembra da demissão que deve pedir no dia seguinte e do adeus e olha o passaporte e pergunta pra onde deve ir e a resposta vem nítida nos seus ouvidos dizendo “tanto faz, Alice”.

Alice pega as suas malas e vai embora dali.

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2 Comments

Filed under Fricção

2 responses to “Travelling without moving

  1. Ira

    vai embora nada Alice.
    isso tudo aí é TEU.
    toma de vez teu espaço. se espalhe cada vez mais. tome o espaço do outro. deu mole, toma. quem tem q se incomodar são eles e não você. é tudo T E U. tudo q vc quiser que seja e que seja BOM pra vc. não fique desejando coisa pouca, pequena.
    não se intimide por frivolidades, Alice.
    frivolidades passarão, como você mesma disse. è tão pequeno, tão nada. só Alice não enxerga o quanto acima e maior está disso e é disso tudo.

    quanto ao sair por aí… se for para voltar depois pro que é de Alice aí, pro que é meu aqui, Alice tem compania quando quiser.

  2. nhé…
    quase sendo como Alice ou vc escreve minha vida?

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