Alice não escreva aquela carta de amor

Alice era uma moça que parecia não precisar de nada porque tinha tudo. Alice morava sozinha, trabalhava, tinha amigos, um carro e uma vida que a maioria das pessoas julgaria acima da média. Quem visse Alice pensaria “rica”. Mas Alice era como nós, tinha as mesmas angústias, sonhos e contratempos. Vinda de uma infância humilde que ninguém acreditaria. Alice não contava muito sobre isso. Nem falava do irmão suicida nem da família capenga. Achava que seus encontros e relações deveriam estar além dos infortúnios e que ninguém mais precisava se preocupar com suas coisas. Alice precisava ser independente, mesmo não sendo de verdade. Fora criada assim, tomando o ônibus sozinha aos 9 e preparando sua janta em cima de um banquinho na cozinha. E Alice escondia uma mania: medo de incomodar. Incomodou demais a mãe que dormia até tarde nos finais de semana querendo atenção no pouco tempo que passavam juntas. Justamente por isso, preferia não se fazer notar muito. Pra não causar desconforto. Da pouca memória que guardava, a cena recorrente era a de se deitar no corredor da pequena casa em silêncio, esperando com coraçãozinho ansioso que começasse a movimentação do dia. Talvez por ter ouvido demais da conversa dos adultos – usava com sucesso a tática de parecer absorta em alguma tarefa – cresceu mais rápido que os colegas. E mesmo não gostando de tudo que ouvia, ouvir era como um vício. Alice precisava saber o que a cercava para agir corretamente quando a oportunidade surgisse, como se tivesse uma necessidade cartesiana de jamais ser surpreendida. Nada disso fez dela uma mulher dissimulada, senão atenta. Hoje Alice saca no ar os próximos acontecimentos, embora não seja o que chamam de vidente. Ela não vê o futuro, não sabe das mortes nem das tragédias. Também desconhece de toda sorte e alegria. Especialmente da sua. Alice vai vivendo cada dia como pode e mesmo sem gostar muito de dançar conforme a música, tenta se encaixar nos acontecimentos para que ninguém suspeite dessas estranhezas que lhe rodeiam.

Quando anda, Alice coloca as mãos nos bolsos. Depois de tanto tempo ainda não sabe ao certo como devem ficar os braços durante o movimento.

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Filed under Fricção

4 responses to “Alice não escreva aquela carta de amor

  1. madá maciel

    alice sente mais do que todos, talvez.

  2. Alice sente vontade de se afastar um pouco quando outras pessoas passam por ela.

    e por fezes o faz…

  3. Ana Sekler

    Ah, Alice, eu te conheço tão bem…só o caminho percorrido teve umas paisagens diferentes, mas conheço seus medos, seus talentos esculpidos pelas dores e decepções que conhece tão bem…Ah, Alice, saiba que ninguém fica sempre na sombra, tem sempre o momento “blossom”, o momento em que sorrisos brotam nos lábios mais espontâneos e numerosos do que os mares de lágrimas que já brotaram dos ombros…pode crer, Alice…esse mundo tem seu mistério e, vez ou outra a vida sorri pra nós!
    beijo

  4. Ira

    Alice é vidente da observação…
    Tem uma colega sua que preferia sentar no canto e observar os amiguinhos brincar para traçar perfis psicológicos, quando criança. Essa mesma colega, hoje, é uma analista de quinta e acha que as verdades do mundo tem que ser ditas, doa a quem doer, queira ou não queira ouvir.

    Semana passada soube que essa colega ouviu o que nunca ouviu antes… que por mais certas que as análises quase que premonitórias possam parecer, que se não solicitadas, devem permanecer dentro desse jogo “divertido” e visceral (pq é incontrolável e acontece querendo ou não) de observação e constatação, sem ultrapassar para os outros.

    Acho que Alice lida melhor com a observação que essa colega que, de alguma forma, acredita que o mundo precisa reconhecer e aproveitar desse “talento” adquirido a duras penas na vida, talvez pelos mesmos motivos que Alice, não sei bem.

    Talvez meio que pra justificar e fazer valer o penar daquele aprendizado/talento talvez por puro exibicionismo mesmo.

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